Tributo a Chico Buarque

Quando olhaste bem nos olhos meus e o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei, eu te estranhei, duvidei, me debrucei sobre o teu corpo: esse mesmo corpo onde eu costumava brincar feito bailarina, quando chegava a noite, pra acabar morta nos músculos exaustos do seu braço, frouxa, murcha, farta…Se nas travessuras das noites eternas, na bagunça do teu coração meu sangue errou de veia e se perdeu, me diz pra onde é que ainda posso ir.
Chorei, e chorei, e chorei, até ficar com dó de mim, trancada no camarim, tomei um calmante, um excitante e um bocado de gin. Amaldiçoei o dia em que te conheci, num arranha-céu de paredes de giz, dançando no sétimo-céu, olhos nos olhos, “e se eu pudesse entrar na sua vida?”.
Você, meu amor, tem um jeito manso que é só seu, quando me beija a boca minha pele toda fica arrepiada, e me beija com calma até minha alma se sentir beijada, e quando você me deixou, meu bem, dei pra mal-dizer o nosso lar, pra sujar teu nome, e me vingar a qualquer preço, só pra mostrar que ainda sou tua.
Mas devo dizer que não vou lhe dar o enorme prazer de me ver chorar, nem vou lhe cobrar pelo seu estrago, meu peito tão dilacerado…
Cantei, cantei, e como dói cantar assim, e os homens lá pedindo bis, bêbados e febris a se rasgar por mim. Não me troquei, voltei correndo ao nosso lar, voltei pra me certificar que nunca mais vais voltar.
Trocando em miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamam lar, aceite uma ajuda do seu futuro amor pro aluguel, devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu, pedaço de mim, metade arrancada de mim, leva os teus sinais que a saudade é o pior castigo.
Mas se a noite enfim lhe cansar, venha feito criança chorar o meu perdão, e ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado, como vou me aborrecer? Dou um beijo em seu retrato e abro meus braços pra você.
Vem, que eu quero te dizer que o instante de te ver custou tanto penar, não vou me arrepender, só vim te convencer que quase morri de tanto te esperar, eu quero te contar das chuvas que apanhei, das noites que varei, no escuro a te buscar, eu quero te mostrar as marcas que ganhei, nas lutas contra o rei, nas discussões com Deus.
Mas se não me quiseres, serei mais uma dessas mulheres que só dizem sim, por uma coisa atoa, uma noitada boa, um cinema, um botequim. E quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, na manhã seguinte, não conte até vinte, se afasta de mim, pois já não vales nada, és página virada, descartada do meu folhetim.
Era fatal que o faz de conta terminasse assim, pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim, e você sumiu no mundo sem me avisar, e agora eu sou uma louca a perguntar: “o que que a vida vai fazer de mim?”.

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

(in)Formalismos

Meu cabelo está sujo, as olheiras bem marcadas, não tenho comido direito, gastei o dinheiro do almoço com “Ana Karênina” num sebo. Sou decepção viva, vivída e concreta. Frustração, insuficiência e morte. Se continuo é por mera formalidade.

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

Porque você gosta de Elis e filme nacional

Quando coloquei meus olhos em você com um pouco mais de cuidado, eu soube, eu tive certeza que meu destino estaria atado ao seu por um bom tempo, se não isso, ao menos com muita intensidade.
E de fato minha alma se encontra tão próxima da sua, que o simples estar perto de você me invade de sensações, (pres)sentimentos de você. Mais que isso, minha cabeça e minha alma em constante conflito se acalmam, tudo dentro de mim se aquieta, e me abandono no encaixe perfeito das nossas mãos, quando de repente você segura meus dedos entre os seus por um tempo incrivelmente longo.
É isso que é tão diferente em você: todas as outras pessoas soltariam suas mãos depois de um certo tempo. Você não. Você continua segurando a minha mão, como se pudesse me prometer, como não quis em outro momento, numa noite embriagada de nós dois, largados na calçada de um lugar qualquer, num momento tão nosso, estar sempre do meu lado.
Jamais experimentei tal sensação, me dissolver assim em outro ser e ao mesmo tempo estar tão completa em você. Me dissolve seu olhar doce, quando depois de tanto me implicar, você me puxa num abraço, ou o seu discurso rápido, alto, cuspido, quando você defende com toda a verdade o que acredita, com tanta paixão e coragem, que passa a quase nos pertencer também seu pedaço de realidade.
Por nossa semelhança assustadora, de completarmos tão bem as frases um do outro, ou por nossa antítese desconcertante, nos momentos em que eu me comporto como uma garotinha e você como um velho (“porque sei que sou semelhante de você, diferente de você, passageiro de você, á espera de você”), pela sua força que não cede e o seu amor velado e tão imenso, em comunhão com o meu amor explícito, pelos seus textos lindos, tão cheios de você, pela nossa poesia escrita de lápis nas mesas, é que me deixo acreditar nessa ilusão doce de arco íris (docinho de morango, você sabe): quando você diz que vai casar comigo, eu sei que a pessoa que você convida a caminhar até o altar com você é a sua amiga, sua amiga que rabisca sua mão, que te fala com a voz manhosa e que você imita com um tom estridentíssimo. Ainda assim, acabo sempre imersa nessa saudade de futuro, nessa vontade de que fosse mesmo você ali do meu lado, logo eu que disse tanto que não acreditava no casamento, que nenhum amor podia durar pra sempre, me pego esperando de você essa falsa promessa de eternidade.
Não minto, ás vezes tenho medo de estar me perdendo frente a esse amor que quase me digere, mas esqueço disso, como de todo o resto, quando você segura minha mão e me chama pelo apelido lindo e ridículo que você inventou pra mim.

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

Epitáfio

Ontem me bateu o desespero de domingo, a cidade parada lá fora, na janela, tudo parado aqui dentro e mil pensamentos na cabeça.
Fui dar uma volta, sozinha, o sol estava se pondo, e é a hora do dia que eu mais gosto, quando o céu fica alaranjado e vai tendendo pro azul cada vez mais escuro.
Deixei minha mente divagar: assim, sozinha, no meu silêncio, eu não tinha como me trair.
E a mente foi, como sempre, dar lá nos cantos obscuros da minha existência, na morte.
Mais que isso, no que eu queria deixar pro mundo.
Eis minhas últimas palavras:

Me despeço de ti, mundo velho.
Me despeço com o coração cansado, jovem com cara de velho, cheio de cicatrizes.
Cheio de amor também, muito amor por tudo que existe.
Não fui boa pessoa em vida.
Agora eu sou cinza, lembrança que se esvai, que se perde sempre um pouco mais.

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

E algum remédio anti-monotonia

Dizem que a nossa geração é a geração do tédio… Sem grandes ídolos, sem ideologias, sem contra o que lutar. Nós somos os filhos do meio da história, sem propósito ou lugar. Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida . (Tyler Durder)
Se minha geração não é corroída pelo tédio, ao menos eu sou, estou, absolutamente tomada.
E este blog nada mais é que um manifesto, contra toda essa monotonia, ou um simples transbordar de mim, que já não caibo mais dentro deste invólucro que chamam corpo, tenho ideais demais pra essa cabeçinha, que anda dando tilte, e entrando “numas” de bloqueios e mais bloqueios criativos.
Meu nome é Clementine (odeio essa porcaria de nome americanizado, inglêzado ou sei lá o que), tenho 17 anos, nasci na porcaria do mesmo dia que Jesus Cristo – sacanagem competir com o cara.
Gosto de pensar que sou diferente das outras pessoas, mas sou, no fundo, mais uma estranha (que teve a infelicidade de nascer no natal), que vem lhes contar das suas tristezas, felicidades, ideologias, amores, que no fim são como os de todas as outras pessoas, ainda que sejam diferentes.
Esperem disto aqui uma quantidade imensa de porcarias, ilusões, clichês… Esperem profundismos, fatalismos, utopias. Esperem bastante lixo literário.
Mas sejam solidários com esse ser que vos escreve e voltem, sempre que possível, me visitem nesse lugar que também é minha casa, deixem um comentário para que eu possa retribuir a visita e conhecê-los melhor.
São meus convidados.

Publicado em Uncategorized | 5 Comentários